Bravos homens idealizaram um movimento de extrema grandeza cultural, mas não imaginavam que suas ideias fossem tão bem aceitas e difundidas rapidamente, que o fizesse grandioso também em número. Isto nada mais fez do que confirmar quão glorioso foi esta idealização. Todo crescimento rápido pode ter consequências desastrosas. Além disso, o governo e o exército tinham naquele grupo de jovens certa desconfiança, pois exaltavam a Revolução Farroupilha, seus mentores e consequentemente o “20 de setembro”, levando os poderes constituídos a conclusões que pendiam para o lado revolucionário e separatista.
Foi então que Glaucus Saraiva, considerado extremamente inteligente e com a mente de certa forma avançada para a época, se sensibilizou e, por ser muito reservado, fez de forma solitária um documento que, depois de concluído, foi apresentado como sugestão a ser seguido pelos tradicionalistas.
Tal documento foi de extrema importância, fazendo com que o exército o enxergasse com outros olhos, percebendo que o movimento queria andar lado a lado com os governantes. O Conselho Coordenador reconhecendo sua importância para o bom prosseguimento do movimento, decidiu oficializar a Carta de Princípios, que foi aprovada no 8º Congresso Tradicionalista, realizado na cidade de Taquara, de 20 à 23 de outubro de 1961, no CTG Fogão de Chão. A partir deste momento ela começou a ser vista como uma lei a ser cumprida, causando uma certa revolta nos gaúchos, que não aceitavam ser mandados, defendendo a idéia de que gaúcho é macho, não recebe ordens de ninguém e é dono de suas próprias razões.
Dentro do movimento, seus efeitos foram para nortear um rumo a ser seguido, pois na época o que prevalecia eram as contradições, onde cada CTG procurava inclinar-se para seu lado, fazendo com que não existisse unanimidade.
Para o bom funcionamento era necessário e de fundamental importância, um perfeito conhecimento e interpretação da mesma.
Aos poucos os gaúchos foram aceitando-a e começaram a perceber que ela só ajudaria o movimento a crescer e que seu objetivo não era obrigar e sim orientar. Hoje essa carta integra o Regulamento do Estatuto do MTG e é a primeira diretriz aprovada no tradicionalismo. Até os dias de hoje a Carta de Princípios continua, de um certo modo, de conhecimento restrito dentro do movimento, tendo este prospecto sofrido sensíveis alterações nos últimos anos, devido a importância dada pelo MTG, fazendo dela assunto de trabalhos realizados, como este de hoje.
Seguindo as palavras do Senhor Ciro Dutra Ferreira e Vilson de Souza, na época de sua criação um dos objetivos mais importantes foi o art. XI, que trata do respeito as leis e os poderes públicos legalmente constituídos, que fez com que o exército e o governo vissem com outros olhos aquele grupo de jovens. E o mais importante nos dias de hoje é o art. XXIX que valoriza e exalta o homem do campo. E dentro deste item salientou a importância do surgimento dos laçadores urbanos, como exemplo, que trazem para a cidade uma parte da realidade da vida rural.
Em poucas palavras podemos destacar como conclusão final que, através da difusão e preservação da nossa cultura e de nossos valores morais, temos a possibilidade de dar base a uma sociedade harmônica, colaborando assim com o bem coletivo, o progresso e a evolução de um povo que tem como ideal os princípios de LIBERDADE, IGUALDADE e HUMANIDADE.
Carta de Princípios do Movimento Tradicionalista Gaúcho
I. Auxiliar o Estado na solução dos seus problemas fundamentais e na conquista do bem coletivo;
II. Cultivar e difundir nossa História, nossa formação social, nosso folclore, enfim, nossa Tradição, como substância basilar da nacionalidade;
III. Promover, no meio de nosso povo, uma retomada de consciência dos valores morais do Gaúcho;
IV. Facilitar e cooperar com a evolução e o progresso, buscando a harmonia social, criando a consciência do valor coletivo, combatendo o enfraquecimento da cultura comum e a desagregação que daí resulta;
V. Criar barreiras aos fatores e idéias que nos vêm pelos veículos normais de propaganda e que sejam diametralmente opostos ou antagônicos aos costumes e pendores naturais do nosso povo;
VI. Preservar nosso patrimônio sociológico representado, principalmente, pelo linguajar, vestimenta, arte culinária, formas de lides e artes populares;
VII. Fazer de cada CTG um núcleo transmissor da herança social e através da prática e divulgação de hábitos locais, noção dos valores, princípios locais, reações emocionais, etc.; criar em nossos grupos sociais uma unidade psicológica, com modos de agir e de pensar coletivamente, valorizando e ajustando o homem ao meio, para a reação em conjunto frente aos problemas comuns;
VIII. Estimular e incentivar o processo aculturativo do elemento imigrante e seus dependentes;
IX. Lutar pelos direitos humanos de Liberdade, Igualdade, e Humanidade;
X. Respeita e fazer respeitar seus postulados iniciais, que tem como característica essencial a absoluta independência de sectarismo político, religioso e racial;
XI. Acatar e respeitar as leis e os poderes públicos legalmente constituídos, enquanto se mantiverem dentro dos princípios e do regime democrático vigente;
XII. Evitar todas as formas de vaidade e personalismo que buscam no Movimento Tradicionalista veículo para projeção em proveito próprio;
XIII. Evitar toda e qualquer manifestação individual ou coletiva, movida por interesses subterrâneos de natureza política, religiosa ou financeira;
XIV. Evitar que os núcleos tradicionalistas adotem nomes de pessoas vivas;
XV. Repudiar todas as manifestações e formas de exploração direta e indireta do Movimento Tradicionalista;
XVI. Prestigiar e estimular quaisquer iniciativas que, sincera e honestamente, queiram perseguir objetivos correlatos com os do Tradicionalismo;
XVII. Incentivar em todas as formas de divulgação e propaganda, o uso sadio dos autênticos motivos regionais;
XVIII. Influir na literatura, artes clássicas e populares e outras formas de expressão espiritual de nossa gente, no sentido de que se voltem para os temas nativistas;
XIX. Zelar pela pureza e fidelidade dos nossos costumes autênticos, combatendo todas as manifestações individuais ou coletivas, que artificializem ou descaracterizem as nossas coisas tradicionais;
XX. Estimular e amparar as células que fazem parte de seu organismo social;
XXI. Procurar penetrar e atuar nas instituições públicas e privadas, principalmente nos colégios e no seio do povo, buscando conquistar para o Movimento Tradicionalista Gaúcho a boa vontade e participação dos representantes de todas as classes e profissões dignas;
XXII. Comemorar e respeitar as datas efemérides e vultos nacionais e particularmente o 20 de setembro, como data máxima do Rio Grande do Sul;
XXIII. Lutar para que seja instituído, oficialmente, o Dia do Gaúcho, em paridade de condições com o Dia do Colono e outros "Dias" respeitados publicamente;
XXIV. Pugnar pela independência psicológica e ideológica de nosso povo;
XXV. Revalidar e reafirmar os valores fundamentais da nossa formação, apontando às novas gerações rumos definidos de cultura, civismo e nacionalidade;
XXVI. Procurar o despertar da consciência para o espírito cívico de unidade e amor à Pátria;
XXVII. Pugnar pela fraternidade e maior aproximação dos povos americanos;
XXVIII. Buscar, finalmente, a conquista de um estágio de força social que lhe dê ressonância nos Poderes Públicos e nas Classes Riograndenses, para atuar real, poderosa e eficientemente, no levantamento dos padrões morais e de vida de nosso Estado, rumando, fortalecido, para o campo e o homem rural, suas raízes primordiais, cumprindo, assim, sua destinação histórica em nossa Pátria.
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