sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

ORAÇÃO DO GAÚCHO

Pai Nosso

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; e com licença Patrão Celestial.

Vou chegando, enquanto cevo o amargo de minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso camperear por outras invernadas e repontar do Céu, a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.

Eu bem sei que qualquer guasca, bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida,

se não se estriba na proteção do Céu.

Ouve, Patrão Celeste, a oração que te faço ao romper da madrugada e ao descambar do sol:

"Tomara que todo mundo seja como irmão! Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim".

Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto portera afora... êta potrilho chucro, renegado e caborteiro...mas eu te garanto, meu Senhor,

quero ser bom e direito! Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do Céu.

Socorre-me, São Pedro, Capataz da Estância Gaúcha.

Prá fim de conversa, vou te dizer meu Deus, mas somente pra ti, que tua vontade leve a minha de cabresto pra todo o sempre e até a querência do Céu.

Amém!!!

 

Ave-Maria do Peão

Ao reponte do sol que descamba, o dia se aprochega do arremate

pelos campos e nos matos da querência, no revoar da bicharada voltando aos ninhos é hora de recolhimento.

No rancho que há no interior de mim mesmo, eu, gaúcho de fé, me arrincono e medito.

Despindo o poncho da vaidade e do orgulho, tiro o chapéu, apago o pito

e me achego pra uma prosa com o patrão maior.

Na sua presença meu sangue quente de farrapo se faz manso caudal.

Entrego-lhe minha alma, afoita de alcançar lonjuras e abrir cancha em busca do destino.

Renuncio a minha xucra rebeldia e me faço doce de volta e macio de tranco para dizer-lhe:

Gracias patrão por tudo que me deste, por esta querência Senhor,

que meus ancestrais regaram com seu sangue, e que aprendi a amar desde já.

Pelos meus parceiros desta ronda da vida sempre de prontidão para me amadrinharem

na campereada mais custosa ou para matearem comigo na hora do sossego.

Reparte com eles, patrão, esta fé que me deste e este orgulho pela minha querência,

ajuda patrão a manter acesa esta chama, concede sempre ao gaúcho a força no braço

e o tino prá saber o que é correto.

Dá-nos consciência para preservar a nossa cultura livre da invasão dos modismos,

conserve a essência e a beleza da nossa tradição.

E agora, com licença patrão, que vou aproveitar a olada para um dedo de prosa com Nossa Senhora.

Ave Maria, primeira prenda do céu, contigo está o Senhor,

na estância maior tu és bendita entre todas as prendas

e bendito é o piá que trouxeste ao mundo... Jesus.

Maria, mãe de Deus e mãe de todos nós,

roga pela querência e pelos gaudérios que aqui moram,

nesta hora e no instante da última cavalgada.

Amém!!!

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